Conto autoral | Banquete

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Banquete

Na mesa de madeira, o cardume de luz encontra um lago espelhado após seu mergulho do lustre de cristal. Se esconde embaixo dos pratos e terrinas brancos com frisos dourados, ou então nada ligeiro através dos talheres e taças. Ao seu lado, ele comenta sobre a beleza do arranjo e a delicadeza da porcelana com a voz erodida por décadas de cigarro. Ela apenas concorda, estendendo o guardanapo sobre o colo. Sim, tudo muito bonito.

A conversa avança conforme o roteiro. Passada a primeira cena, com suas amenidades e calidez amorosa, chega à parte onde os músculos começam a se aquecer. À revelia, falam com sinceridade e por amor sobre aquilo que é melhor para quem não está lá. Afinal, o primo não pretende ser juíz? "Quem avisa, amigo é", dizem com resignada preocupação.

Ela, enquanto isso, come. Rasga pedaços de pão e os enfia, seguidos, na boca. Varia os queijos e as pastas – justifica-se aérea sem virar o rosto, quer provar de tudo. Encerram-se os nomes ausentes conforme o ensaio e entra o prato principal na linda sopeira pintada de azul em estilo chinês, presente de casamento da bisavó. Levantam a tampa ao som do riso rouco e embriagado à esquerda e ela gela.

Dentro daquele aquário, em um embolado luzidio, flutuam centenas de enguias longas e pretas. Um cheiro marinho, de mercado de peixe – ou como uma maré violenta do próprio sexo – enche o salão. Ela respira pela boca discretamente. Já está mais que satisfeita, quer deixar a mesa. Eles avançam, vorazes pelo clímax. Seu tio, à sua frente, serve-lhe com cavalheirismo e o seu sorriso de agradecimento era todo de dama. Sortuda! Pegou as ainda vivas!

"É o prato favorito dela desde pequena, né, filha?"

"Olha que eu gosto de enguia, mas não sei como você consegue comer assim..."

Ri e concorda que era para poucos, verdade. Do seu prato, os animais a olham, dóceis. Percebe que precisa comer. Não comer resultaria em uma transgressão insuportável. Ao seu redor, alguns já se serviam pela segunda vez e os elogios evoluíam para gelo fino. Fisga uma enguia com o garfo e o animal, anestesiado pela asfixia, apenas contrai-se debilmente. A boca abre-se trêmula, a garganta em espasmos.

"Aliás, eu vi os novos quadros! Tão lindos! Foi você sozinha ou seu professor ajudou?"

Engole e acena com a cabeça. A enguia escorrega goela abaixo. Era ela a protagonista agora, nua sob a ribalta. Protagonista ou objeto? Teria se confundido enquanto espetava o alvo seguinte? Mas por que aquela paleta, com tão pouco contraste? Não que fosse uma crítica, claro, a verdade do artista é toda dele - mas o observador interpreta ao seu modo, certo? Não seria melhor ter uma resposta, uma razão? Calma, já responde, só quer colocar para dentro cada uma daquelas enguias. Uma após a outra, elas descem da boca ao estômago até ela perder a conta. Sentia-as revoltosas nos sucos gástricos, vivas e subitamente despertas. Chocam-se contra as paredes do seu corpo e, a cada toque, ela sente choques elétricos que arrepiam a sua pele e a fazem fechar as pernas com tanta firmeza que os ossos dos joelhos doem, como se quisessem, pela dor, transformar a ela própria em uma enguia - lisa, una, sem aberturas por onde um toque pudesse se esgueirar.

Conto escrito durante o CLIPE 2020 (Curso Livre de Preparação do Escritor - casa das Rosas), com a proposta de temas subentendidos.